O BODE E O TOCO
Solano Brum
O caso foi narrado por Papai que ao sentar-se à mesa para jantar, sempre nos contava alguns causos; coisas que nunca especulei se verdadeiros ou não; todavia, ouvia, embora fossemos dois à mesa, filhos legítimos e um jovem negro, com dezesseis anos, na época, que não largava meu Pai. (depois contarei a história desse menino, a qual está inserida em CAUSOS QUE OUVII DE MEU PAI.
“O mesmo fora abandonado numa estrada e assim que o vaqueiro anunciou o encontro do menino, meu Pai o colocou na garupa do cavalo e seguiu viagem.
A família viu meu Pai com os vaqueiros na pequena aldeia, tomando um suco de limão galego e adoçado com rapadura, para matar a sede e refrescar o calor e antes de ele e os vaqueiros tomarem pé na estrada, rumou à frente, deixando o pobrezinho a espera dos passantes; daí, ele o encontrou...” mas, voltando ao caso do Bode.
Passávamos, certa vez, – começava a contar – por uma pequena Aldeia e no final da rua onde havia um casebre; nele, morava um Senhor Afro descendente; visitado por poucos da região; e, já com uma idade avançada. Esse Senhor segurava um bode amarrado pelo pescoço, enquanto sua mão direita passava um ungüento nos olhos do bicho. Parei e perguntei:
“- É bicheira, Senhor?”
“-Não! Exclamou!” Com certo sorriso de satisfação pela resposta.
“-Então qual a precisão da banha de galinha com a mistura das folhas de Aroeira socada?”
O poder do sumo da aroeira era para desinflamar o lugar afetado e aliviar a dor e a banha de galinha para espantar as moscas varejeiras.
“-É que ele é teimoso como jumento!”
“-O que ele fez?
“-Ta vendo aquele toco?” apontou para um tronco de árvore com cerca de um metro e meio, um pouco adiante, queimado.
“- Sim!”
“-Pois é seu Moço: Esse danado cismou que vai derrubá-lo!” - respondeu e riu sarcasticamente.
Mostrando-lhe que havia entendido, desci do cavalo para olhar mais de perto a cabeça do bicho.
A árvore fora cortada anos antes de o bichinho haver nascido e como não houve quem conseguisse retirar o tronco, alguém se pôs a queimá-lo; só que não terminou o serviço e o bichinho cresceu, tomou corpo, ficou pesado e assumiu a missão de derrubá-lo às cabeçadas.
Afastava uns oito metros; parava, olhando sempre o obstáculo, empenhava outra carreira e acertava o obstáculo com a cabeça; façanha esta que já o fizera perder um dos chifres. Como ele ainda permanecia de pé, o bicho se afastava uns dez metros ou mais e iniciava outra carreira para testar a capacidade de resistência, nesse caso, tanto a dele quanto a do obstáculo que não saia do lugar. Eram uma, duas, três, enfim, quando não mais enxergava o obstáculo, perdia as forças e se deitava ali mesmo; então, esse Senhor, caridoso, sem demovê-lo do empenho tomado particularmente, tratava de seus olhos, porém, assim que ele conseguia avistar o toco, pronto: Era uma cabeçada só e o pus junto com o sangue pisado escorria e ele, não vendo a mais nada, deitava-se ali mesmo.
“- Vou prendê-lo e tapar os olhos dele, Senhor; de agora em diante, pode ser que ele desista dessa loucura!
Depois de ouvi a história, assenti com um gesto de cabeça à sua decisão; e, virando às costas aos fatos, juntei-me aos meus auxiliares vaqueiros que já me aguardavam montados nos cavalos.
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Algumas de suas histórias eram inventadas e ele juntava aos fatos reais, um pouco mais de fantasia; todavia, depois que cresci, entendi que ele as criava para nos deixar maravilhados; coisas que hoje em dia, não há quem nos conte que ouviu histórias de seus pais, mesmo que inventadas; nem que esteve atento a algumas delas, lidas por eles... Talvez, mais por falta de tempo ou porque Celulares e Televisões na frente das crianças, engolem momentos felizes de antigamente!
VIVEMOS OUTROS TEMPOS E TEMOS DE ACEITÁ-LOS; AFINAL, SOMOS RESPONSÁVEIS DIRETOS POR TUDO QUE ESTÁ ACONTECENDO.